Uma receita médica emitida por um profissional da rede pública de saúde de Piracicaba, no interior de São Paulo, provocou repercussão nas redes sociais após incluir recomendações como “igreja” e “cuidar de si” no esquema de tratamento de um paciente de 22 anos que procurou atendimento com fortes dores abdominais, dores de cabeça, dores no ouvido e paralisia facial.
O documento, compartilhado nesta semana, foi elaborado durante atendimento realizado na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Vila Sônia. Na prescrição, o médico indicou o uso de fluoxetina 20 mg e acrescentou orientações como “alimentação”, “exercício”, “cuidar de si”, “igreja”, “terapia (psicólogo/psicanalista)” e “remédio”.
Ao final da receita, o profissional registrou a observação: “Só fazer o uso da medicação se fizer todo o esquema”.
Segundo o paciente, que não será identificado, ele não possui histórico de ansiedade, não mencionou religião durante a consulta e também não abriu espaço para esse tipo de abordagem, apesar de ser oriundo de uma família cristã. O jovem afirma que convive há mais de um mês com dores e ainda não recebeu um diagnóstico definitivo para o problema.
Em entrevista ao G1, ele relatou que o atendimento foi marcado por uma postura ríspida do médico, que teria atribuído seus sintomas a um quadro de ansiedade e depressão.
“Ele olhou para mim e falou que eu não estava com nada, que era ansiedade […]. Eu relutei na hora, eu falei ‘ansiedade?’. Ele não gostou muito de eu ter questionado, de ter duvidado do que ele estava falando. E aí o atendimento parou de ser comigo. Minha mãe estava ao lado, ele começou a falar só com a minha mãe e me ignorar totalmente. Ele começou a falar com a minha mãe ‘Ah, mãe, ele tem ansiedade. Isso pode ser ansiedade’. Começou a me diagnosticar com ansiedade, depressão”, relatou.
O paciente também afirmou que o médico teria recomendado verbalmente a prática religiosa durante a consulta e minimizado os relatos das dores físicas apresentadas.
Atendimento anterior apontou alteração em exame
De acordo com o relato do jovem, ele procurou inicialmente a unidade de saúde no domingo, após sentir fortes dores abdominais, dores no ouvido, dores de cabeça e sofrer uma paralisia facial.
Na ocasião, foi atendido por uma médica, recebeu medicação para aliviar a dor e foi orientado a retornar no dia seguinte para uma nova avaliação, após uma alteração nos rins ser identificada em um dos exames realizados.
Já no retorno à unidade, na segunda-feira, o paciente afirma que tentou abordar a alteração renal, mas que o médico teria se recusado a aprofundar a investigação, atribuindo o quadro à ansiedade.
Após o atendimento, ele recebeu medicação para dor e decidiu buscar assistência em outra unidade de saúde.
Desde então, passou a realizar tratamento com corticoides e sessões de fisioterapia facial. O jovem também conseguiu encaminhamento prioritário para consultas com neurologista e gastroenterologista por meio da rede pública. Paralelamente, a família busca atendimento especializado na rede privada.
Prefeitura diz que orientação religiosa foi complementar
Em nota oficial, a Prefeitura de Piracicaba informou que o caso será analisado administrativamente, seguindo os protocolos adotados para manifestações relacionadas aos atendimentos prestados pela rede municipal de saúde.
A Secretaria Municipal de Saúde afirmou que o paciente foi acolhido e submetido a uma avaliação médica completa, destacando que a assistência clínica não foi substituída por qualquer outro tipo de orientação.
Segundo a administração municipal, a recomendação relacionada à participação em atividades religiosas ocorreu de forma complementar, com o objetivo de “fortalecer hábitos saudáveis, oferecer suporte emocional e manter vínculos sociais e comunitários”, fatores que poderiam contribuir para o bem-estar de determinadas pessoas, respeitando suas convicções e escolhas individuais.
A pasta também ressaltou que mantém compromisso com a ética profissional, a autonomia dos pacientes, a liberdade de crença e a laicidade do serviço público, enfatizando que não é admissível qualquer forma de imposição religiosa no atendimento oferecido pela rede municipal de saúde.
A análise administrativa deverá apurar a conduta adotada pelo profissional e verificar se houve eventual descumprimento dos protocolos estabelecidos para o atendimento na rede pública.











