Novas mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelam uma relação frequente e próxima com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Os diálogos, que começam em 2024 e avançam por 2025, mostram os dois se tratando como “amigo” e “irmão”, além de pedidos de ingressos, disponibilidade de aeronaves, hospedagens e encontros privados.
Em uma mensagem de março de 2025, Motta perguntou diretamente a Vorcaro: “irmão consegue 4 entradas no camarote para as campeãs?”
Vorcaro respondeu que conseguiria a quantidade desejada e pediu os dados das pessoas que utilizariam os ingressos para o desfile das campeãs do Carnaval do Rio de Janeiro.
Avião à disposição
As conversas também mostram Vorcaro colocando uma aeronave à disposição do deputado.
Em abril de 2024, Motta perguntou de onde sairia o avião que o levaria de Guarulhos para Brasília. Vorcaro respondeu que a aeronave já estaria esperando por ele.
Meses depois, o próprio Hugo Motta admitiu ter viajado em uma aeronave de Vorcaro para participar do Fórum Jurídico de Lisboa, em Portugal.
Ao comentar o episódio, afirmou que havia aceitado uma carona porque fora convidado para o evento de última hora e declarou: “Não me pediu nada em troca.”
Hospedagem em Lisboa também foi paga por Vorcaro
A investigação da Polícia Federal mostrou ainda que Vorcaro providenciou hospedagem para Hugo Motta no hotel Four Seasons Ritz Lisboa, durante a viagem de junho de 2024.
Mensagens analisadas pela PF registram pedidos de reservas para Motta, Vorcaro e o senador Ciro Nogueira.
Segundo os documentos da investigação, o custo de cinco diárias em suíte semelhante à destinada aos parlamentares girava em torno de R$ 90 mil por hóspede. Motta declarou posteriormente não ver irregularidade na hospedagem e disse estar tranquilo em relação às suas relações pessoais e profissionais.
Motta também usava casa de Vorcaro em Brasília
Outra revelação publicada nesta terça-feira (29) mostra que a relação ia além das viagens.
Mensagens indicam que Hugo Motta utilizava uma casa de Vorcaro no Lago Sul, área nobre de Brasília, inclusive quando o banqueiro não estava na capital.
O funcionário responsável pelo imóvel avisava Vorcaro quando receberia Motta. Há registros desse tipo em junho, agosto, setembro e novembro de 2025.
Em maio daquele ano, Motta perguntou diretamente se poderia utilizar a residência durante o horário do almoço. Vorcaro respondeu que, após deixar o imóvel, a casa estaria “liberada”.
A última visita registrada nas mensagens estava prevista justamente para 17 de novembro de 2025, dia em que Vorcaro foi preso no aeroporto de Guarulhos.
Os diálogos não esclarecem o que Motta fazia na residência durante essas visitas nem quem o acompanhava.
Empréstimo de R$ 22 milhões para empresa da cunhada
As mensagens também mostram Motta tratando diretamente com Vorcaro sobre um negócio envolvendo uma empresa de sua cunhada.
Segundo a apuração, a empresa obteve ao menos R$ 22 milhões em empréstimos do Banco Master para participar da aquisição de um terreno de mais de 400 hectares em João Pessoa.
Em uma das mensagens, Motta menciona um “formato em sociedade” relacionado à operação e agradece a Vorcaro pela “confiança e parceria”.
O terreno foi adquirido por R$ 45 milhões e tinha valor fiscal registrado de R$ 101 milhões. O projeto prevê a transformação da área de uma antiga fábrica de cimento em um novo bairro da capital paraibana.
A existência do empréstimo e das conversas não comprova, por si só, irregularidade. Motta sustenta que se tratou de uma operação entre empresas privadas realizada antes de as investigações sobre o Banco Master se tornarem públicas.
Conversas também passam por assuntos do Congresso
Os diálogos não ficaram restritos a questões pessoais.
Em novembro de 2024, Vorcaro procurou Motta para discutir um projeto de lei relacionado ao mercado de carbono que havia sido aprovado pelo Senado. Motta respondeu que estava buscando o texto e o encaminharia ao banqueiro.
As mensagens também registram conversas sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Em março de 2024, Motta pediu que Vorcaro lembrasse seus funcionários de produzirem um estudo sobre o tema e sugeriu que os dois voltassem a conversar quando o banqueiro estivesse em Brasília.
Há ainda mensagens nas quais Motta repassa informações relacionadas a reuniões envolvendo autoridades e o Banco Central durante o período em que a venda do Banco Master ao BRB estava em discussão.
“Queria estar mesmo era em Mônaco com você”
Os registros também revelam o tom pessoal da relação.
Em maio de 2025, Vorcaro disse estar em São Paulo e que passaria o fim de semana em Belo Horizonte, mas acrescentou que preferia estar em Mônaco com Motta.
Depois de uma ligação entre os dois, o banqueiro enviou ao deputado o contato de um motorista e orientações relacionadas ao uso de uma residência.
Motta respondeu agradecendo e chamou Vorcaro de “irmãozão”.
O que diz Hugo Motta
Após a divulgação das novas mensagens, Hugo Motta afirmou que sempre manteve diálogo com empresários e representantes de diferentes setores da sociedade durante seus mandatos.
O presidente da Câmara declarou que “não há nenhum ilícito retratado nos diálogos publicados” e repudiou interpretações de que as conversas demonstrariam interesse indevido ou favorecimento.
Motta afirmou ainda que tem “vida limpa” e disse confiar nas autoridades responsáveis pelas investigações.
As mensagens fazem parte do material extraído pela Polícia Federal do telefone de Vorcaro no âmbito das investigações sobre o Banco Master.
Até o momento, a existência desses diálogos e benefícios relatados não representa, por si só, prova de crime cometido pelo presidente da Câmara.











