Vestibular, faculdade e entrada no mercado de trabalho. Embora sejam etapas naturais da vida, essas transições costumam vir acompanhadas de dúvidas, expectativas e pressões que podem desencadear ansiedade e sofrimento emocional. Para a psicóloga Kaline Bianca Fernandes Moraes, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), psicopatologia e transtornos mentais, compreender esses desafios é fundamental para atravessar esse período de forma mais saudável.
Segundo a especialista, o vestibular representa uma das primeiras grandes mudanças na vida dos jovens e reúne diversos fatores capazes de aumentar a ansiedade.
“O vestibular é um marco importante na transição de vida. Para muitos, é uma experiência nova, acompanhada de comparações, dúvidas, expectativas, incertezas e mudanças de vida, rotina e até de cidade. Somando tudo isso, muitos jovens precisam lidar com cobranças internas e externas, o que pode aumentar a ansiedade”, explica.
Além disso, a escolha profissional acontece justamente em uma fase de construção da identidade, quando muitos adolescentes ainda estão descobrindo seus interesses e objetivos. “É como se essa decisão nunca pudesse ser mudada ou que, se ela for modificada, significasse fracasso. Quando essa escolha é vista como definitiva, podem surgir insegurança, autocobrança excessiva e medo de errar.”
Kaline destaca que sentir ansiedade antes de provas, apresentações ou processos seletivos é natural. O problema surge quando essa emoção deixa de impulsionar e passa a limitar a vida da pessoa. Ela também aponta que, entre os sinais mais comuns de sobrecarga emocional, estão cansaço extremo, dificuldade de concentração, alterações no sono, mudanças de humor e perda de interesse por atividades antes prazerosas.
O medo de decepcionar a família também pode influenciar diretamente as decisões dos jovens. “Quando o jovem sente que precisa corresponder às expectativas dos outros, é comum surgir um nível elevado de autocobrança, o que pode atrapalhar decisões mais alinhadas aos seus próprios interesses.”
Outro fator apontado pela psicóloga é o impacto das redes sociais, que frequentemente exibem apenas os melhores momentos da vida das pessoas. “Parece clichê, mas é importante lembrar que cada pessoa tem o seu ritmo. Muitas vezes só vemos os recortes editados da vida dos outros. Quando a comparação constante começa, podem surgir a sensação de atraso e insuficiência, aumentando a ansiedade e reforçando a autocobrança.”
Durante a graduação, os estudantes percebem que o curso escolhido não corresponde às expectativas iniciais. Para Kaline, isso não deve ser encarado como fracasso.
“Muitos jovens escolhem o curso com base nas informações que tinham naquele momento e só conhecem a realidade quando passam a vivenciá-la. Ter essa percepção não significa que a escolha foi um fracasso. Inclusive, pode ser um momento de reavaliar suas escolhas com mais clareza.”
Já na reta final da faculdade, o receio de ingressar no mercado de trabalho costuma ganhar força. “Temos uma nova transição e um novo desafio, que é ingressar no mercado de trabalho, acompanhado pelo aumento das responsabilidades e das expectativas sobre o futuro profissional.”
A especialista ressalta que o início da carreira exige paciência e persistência, especialmente diante de rejeições e dificuldades.
“Vivemos a cultura do imediatismo, mas o crescimento profissional costuma acontecer de forma gradual. Entender que a carreira é construída aos poucos nos ajuda a alinhar as expectativas com a realidade. Meu conselho é valorizar os pequenos avanços e não subestimar o poder da constância.”
Para a psicóloga, a psicoterapia pode ajudar jovens a lidar com medos, inseguranças e expectativas, além de fortalecer a autoconfiança e o autoconhecimento.
Ao final, ela deixa uma mensagem para quem enfrenta esse período de incertezas. “As incertezas fazem parte da vida. Nem sempre teremos todas as respostas sobre o futuro ou faremos as melhores escolhas profissionais. A construção da carreira e do desenvolvimento pessoal acontece aos poucos. O futuro não é construído em um único momento isolado, mas nas escolhas feitas diariamente.”
Kaline reforça que sucesso profissional e saúde mental não devem ser vistos como objetivos opostos. “Existe uma busca incessante por reconhecimento, desempenho e resultados, mas é difícil sustentar uma carreira de forma saudável quando a saúde mental está negligenciada. O cuidado com a saúde mental é uma base para construir uma carreira profissional consistente e sustentável.”











