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Filhos não esquecem guerras familiares

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Por Dra. Aline Araújo | Advogada de Inventário

Domingo, 18h42min. A mesa do almoço já foi recolhida. Minha filha brinca no chão da sala enquanto escrevo esta coluna. E talvez seja justamente por isso que o tema de hoje tenha vindo à minha cabeça.

Crianças escutam mais do que imaginamos. E, pior: elas sentem até o que não foi dito.

No direito de família, existe uma cena que se repete silenciosamente todos os dias. O casal termina. O casamento acaba. Mas a guerra começa. E quase sempre ela começa travestida de justiça.

“Eu só quero o que é meu.”

“Estou lutando pelo meu filho.”

“Ela precisa aprender.”

“Ele merece passar por isso.”

Frases comuns. Consequências profundas. Porque, enquanto os adultos brigam tentando vencer um ao outro, existe uma criança tentando não perder os dois.

Pense comigo. Filhos não entendem processo. Não entendem a petição. Não entendem guarda, audiência ou fixação de alimentos. Mas entendem o silêncio. Entendem quando o pai desaparece emocionalmente. Entendem quando a mãe chora escondida no quarto. Entendem quando deixam de falar o nome de um dos pais dentro de casa. E carregam isso. Às vezes, por décadas.

O curioso é que muitos pais passam anos tentando dar aos filhos aquilo que nunca tiveram: boa escola, conforto, cursos, viagens, estabilidade. Tudo isso importa. Mas nenhuma criança troca paz por estrutura. O problema é que adultos feridos transformam os filhos em extensão da própria mágoa.

E toda guerra familiar produz uma herança invisível: culpa, insegurança, ansiedade e medo de amar. Nenhum juiz consegue apagar isso depois. Por isso, talvez a maturidade no direito de família não esteja em ganhar uma disputa. Talvez esteja em entender que algumas vitórias jurídicas custam caro demais emocionalmente. Principalmente para quem não escolheu estar no meio da guerra.

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