Milhões de brasileiros foram surpreendidos durante a madrugada deste sábado (20) por uma série de alertas falsos enviados por celulares em diversas regiões do país. Agora, documentos da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil obtidos pelo Metrópoles revelam que os disparos foram realizados com o uso de credenciais de acesso vinculadas a dois agentes da Defesa Civil do Pará, em um caso que já é investigado pela Polícia Federal.
Segundo o governo federal, entre a noite de sexta-feira (19) e a madrugada de sábado foram identificados dez envios suspeitos por meio da Interface de Divulgação de Alertas Públicos (IDAP), plataforma utilizada para a disseminação oficial de alertas de risco à população. As mensagens continham termos sem qualquer relação com emergências reais, como “misantropia”, “misantropo” e até referências a um suposto “ataque alienígena”.
Os registros apontam que os dois primeiros alertas foram disparados às 23h41 e 23h45 de sexta-feira. Após identificar atividade irregular, a equipe técnica responsável pela gestão da plataforma bloqueou imediatamente a credencial utilizada, constatando que ela pertencia a um agente de proteção e defesa civil do estado do Pará.
No entanto, a ação não foi suficiente para interromper o problema. Pouco depois, outros oito alertas foram enviados utilizando uma segunda credencial vinculada à mesma instituição.
O governo federal destaca que um dos aspectos mais graves da ocorrência foi o fato de as contas envolvidas possuírem perfil estadual, limitado ao território paraense, mas terem conseguido emitir alertas para localidades em diferentes regiões do Brasil.
“Além do possível uso indevido de credenciais, há indício de que o agente conseguiu operar a plataforma sem a devida restrição territorial, emitindo ou tentando emitir alertas para áreas nas quais os usuários não deveriam possuir permissão de envio”, afirma trecho do documento encaminhado à Polícia Federal.
Todas as mensagens foram classificadas com nível “Extremo”, a categoria mais crítica utilizada pela Defesa Civil em situações que exigem ação imediata da população. Os falsos alertas foram associados a ameaças como alagamentos, tornados e deslizamentos.
As notificações atingiram cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba e Rio Branco, além de estados inteiros, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal.
De acordo com as investigações preliminares, o incidente ocorreu após uma invasão ao sistema IDAP, administrado pelo Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (CENAD). A plataforma é utilizada por órgãos estaduais e municipais para o envio de alertas oficiais relacionados a desastres naturais e situações de emergência.
Diante da gravidade do caso, a plataforma nacional de alertas da Defesa Civil foi retirada do ar às 1h30 da madrugada para conter os disparos indevidos e permitir a apuração dos fatos.
Em coletiva de imprensa realizada no sábado, o secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, Wolnei Wolff, confirmou que milhões de pessoas foram impactadas pelos alertas fraudulentos. Segundo ele, dos dez disparos identificados, nove ocorreram por meio da tecnologia cell broadcast e um foi enviado via SMS.
Cronologia dos alertas falsos
O primeiro alerta foi registrado às 23h41 para o estado do Rio de Janeiro, classificado como risco de deslizamento, contendo a mensagem “Defesa Civil: misantropo ADRESS RJ burros dms pprt”.
Quatro minutos depois, às 23h45, Curitiba recebeu uma notificação de deslizamento com a mensagem “Defesa Civil: misantropia”.
Já entre 1h20 e 1h23 da madrugada, uma sequência de oito novos alertas foi enviada para diferentes regiões do país. As mensagens continham principalmente a expressão “misantropi4”, associada a falsas notificações de alagamentos e tornados.
O caso mais inusitado ocorreu às 1h22, quando moradores de Belo Horizonte receberam um alerta classificado como tornado contendo a mensagem: “Defesa Civil: Civil,HUMANOSCHEGAMOSmisantropo”.
A Polícia Federal investiga agora como as credenciais foram utilizadas, se houve comprometimento dos acessos dos agentes envolvidos e de que forma o invasor conseguiu ultrapassar as barreiras territoriais de segurança da plataforma.











