A trajetória de Eliane Ferreira Silva, psicóloga e professora, é marcada por perdas profundas, recomeços e uma coragem que se construiu em meio à dor. Aos 54 anos, ela ressignifica cada capítulo de sua vida ao transformar experiências pessoais em acolhimento profissional e voluntário, especialmente no atendimento a pacientes oncológicos e suas famílias.
Dona de um consultório com atendimentos presenciais e online, Eliane carrega uma história que começa cedo, aos 17 anos, quando decidiu sair de casa em busca de liberdade. O que parecia ser um novo começo rapidamente se tornou um ciclo de violência física e verbal dentro do casamento. “Pensava que, ao sair do ninho, deixaria para trás a ‘prisão’ que eu julgava serem os limites impostos pelos meus pais”, relembra. No entanto, segundo ela, a realidade foi ainda mais dura: “Aquela liberdade que eu tanto almejava tornou-se uma prisão ainda mais estreita e dolorosa”.
Foram oito anos entre separações e reconciliações, marcados por ameaças que atingiam não apenas a ela, mas também sua família. A ruptura definitiva representou o primeiro grande passo rumo à reconstrução. Contudo, a vida ainda reservava uma dor irreparável.
Em 1998, sua filha Amanda, então com apenas três anos, foi diagnosticada com câncer após uma queixa de dor de cabeça. O que começou como um domingo comum rapidamente se transformou em um dos períodos mais devastadores de sua vida. “De janeiro a maio daquele ano, meu mundo desmoronou”, afirma. Amanda faleceu em 22 de maio, deixando um legado que, segundo Eliane, moldou sua essência.
Durante o tratamento da filha, um episódio marcante mudou definitivamente seus hábitos. Ao vê-la fumar no pátio do hospital, Amanda pediu: “Mamãe não pode fumar. Fumar dá câncer. Vamos orar para Jesus ajudar a senhora a parar”. Na mesma noite, Eliane abandonou o vício. “O amor que eu sentia por ela foi infinitamente maior do que qualquer dependência”, relata.
Mesmo em meio à dor, pequenos gestos ficaram eternizados. Em uma madrugada difícil, ao perceber o sofrimento da mãe, Amanda ofereceu ajuda com a inocência que só uma criança tem: disse que pediria uma Dipirona para aliviar a dor da mãe. “Em meio a tanta dor lembro-me dos voluntários. Um acolhimento puro dentro de um ambiente tão difícil”, recorda, destacando a importância do cuidado humano em momentos extremos.
Anos depois, já em Rio Verde, Eliane encontrou forças para recomeçar. Incentivada a retomar os estudos, respondeu sem hesitar: “Eu quero estudar”. Aos 34 anos, iniciou sua jornada acadêmica pelo EJA, formou-se em Matemática e lecionou por 13 anos. Mais tarde, motivada pelo desejo de compreender a mente humana e suas próprias emoções, decidiu cursar Psicologia, formando-se aos 51 anos.
Hoje, ela atua como psicóloga e também dedica parte do seu tempo ao trabalho voluntário no Hospital do Câncer de Rio Verde, onde oferece apoio emocional a pacientes e familiares. Para ela, o verdadeiro significado de sucesso está no impacto que causa na vida das pessoas. “É transformar a dor em amor, e o amor em ação”, define.
Seu lema profissional reflete a essência de sua trajetória: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”.
Ao olhar para trás, Eliane não romantiza o sofrimento, mas reconhece nele a base de sua força. “Somos as protagonistas da nossa própria história, não meras coadjuvantes”, afirma. Sua mensagem é direcionada especialmente às mulheres que enfrentam situações de dor, luto ou violência. “Você é o seu bem mais precioso. Use sua dor como adubo para o seu propósito”.
A história de Eliane Ferreira Silva é, acima de tudo, um testemunho de resistência, e de como, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, é possível reconstruir a própria vida com significado.
Para atendimentos: (64) 99983-9437.











