O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça confirmou nesta quarta-feira (2) que se reuniu com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, em São Paulo, em 14 de março de 2025. O encontro durou aproximadamente duas horas e ocorreu meses antes de Mendonça assumir, em fevereiro deste ano, a relatoria do caso envolvendo a instituição financeira na Corte.
A reunião veio a público após material obtido pelo jornalista Paulo Motoryn e publicado originalmente na newsletter Noites Húngaras, no Substack. Segundo a publicação, a aproximação entre Mendonça e Vorcaro teria sido articulada pelo advogado baiano Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), com o objetivo de estabelecer um canal de diálogo com o ministro em meio ao aumento das pressões institucionais sobre o Banco Master.
Em nota, Mendonça confirmou que recebeu Vorcaro, mas afirmou que o encontro ocorreu por iniciativa do próprio empresário e que ele “se limitou a ouvi-lo”. De acordo com o ministro, o assunto tratado foi exclusivamente a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, processo que discutia créditos de precatórios de interesse do banco e que, na data da reunião, estava sob pedido de vista de outro ministro do STF.
“Em todas as ocasiões, o assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do Supremo Tribunal Federal e que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco, mas que se encontrava, na exata data da reunião, com pedido de vista de outro Ministro”, afirmou Mendonça.
Ainda segundo o ministro, Vorcaro teria buscado interlocução com outros integrantes do Supremo para tratar do mesmo assunto. Mendonça também destacou que sua atuação no processo foi contrária aos interesses defendidos pelo banqueiro.
“Registre-se, aliás, que a atuação jurisdicional do ministro foi contrária à posição defendida pelo empresário, em linha com sua posição historicamente defendida em casos semelhantes, conforme se pode verificar nos autos”, afirmou.
Áudio menciona atuação de advogado junto a Mendonça
O material apreendido também apresenta registros da relação entre Ciro Rocha Soares e Vorcaro. Em 8 de fevereiro de 2025, o advogado enviou ao banqueiro um áudio acompanhado de uma fotografia em que aparece ao lado de Mendonça.
Na gravação, de seis segundos, Ciro afirma que estava “trabalhando” em favor de Vorcaro enquanto acompanhava o ministro a uma unidade da Alfaiataria Vasco Vasconcelos, em São Paulo, para a confecção de um terno.
“Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”, disse o advogado.
A fotografia teria sido registrada em uma unidade da alfaiataria, que possui endereços em Brasília e São Paulo. Segundo o material divulgado, tanto Ciro Soares quanto o deputado Cezinha de Madureira já haviam procurado Mendonça anteriormente. As conversas teriam envolvido os desdobramentos da crise do Banco Master e as dificuldades enfrentadas pela instituição junto ao Banco Central.
Mendonça afirmou ainda que recebeu o advogado de Vorcaro no mesmo mês e que os registros do gabinete incluem memoriais escritos entregues na ocasião.
“Sobre a reportagem publicada nesta data, o ministro André Mendonça esclarece que recebeu o empresário Daniel Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário, e que se limitou a ouvi-lo”, diz o início da nota.
O ministro também declarou que não comentará diálogos privados entre terceiros e reforçou que sua atuação é pautada pela legalidade e pela impessoalidade.
“Por fim, o ministro não comenta diálogos privados entre terceiros, cujo teor não lhe cabe confirmar. Sua atuação, pública e privada, é pautada pela legalidade e pela impessoalidade”, afirmou.
Divulgação ocorre em meio a crise envolvendo STF e Banco Master
A revelação do encontro ocorre um dia depois da divulgação de um relatório da Polícia Federal que aponta trocas de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes, do STF, e Daniel Vorcaro. O caso deverá ser analisado pelo presidente da Corte, ministro Edson Fachin, a quem caberá decidir se o episódio será levado ao plenário.
Mendonça já indicou que defende essa possibilidade e afirmou que o caso deve ser analisado “de forma pública e transparente, em sessão presencial do colegiado”.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, porém, se manifestou pela nulidade do documento. Segundo Gonet, Mendonça não poderia ter solicitado à Polícia Federal um relatório sobre Moraes sem que a questão fosse inicialmente submetida ao plenário do Supremo.
A divulgação dos novos elementos amplia a pressão sobre o STF justamente no momento em que a relação entre integrantes da Corte e Daniel Vorcaro passou a ser alvo de escrutínio público.











