O avanço da medicina trouxe novas perspectivas para pacientes diagnosticados com Alzheimer, uma das doenças neurodegenerativas que mais preocupam famílias em todo o mundo. Recentemente, medicamentos considerados “modificadores da doença” passaram a ganhar destaque por atuarem diretamente em mecanismos ligados ao desenvolvimento da enfermidade. Apesar da expectativa gerada, especialistas alertam que os tratamentos não representam uma cura e possuem indicação restrita.
Em entrevista, a neurologista clínica Amanda Nascimento Bispo, de Rio Verde (GO), explicou que os novos medicamentos atuam na remoção das placas de proteína beta-amiloide acumuladas no cérebro, estrutura considerada uma das principais responsáveis pelo desenvolvimento da doença.
“Há muitos anos acreditamos que a grande causa da doença de Alzheimer é o depósito de proteínas chamadas beta-amiloides no cérebro. Esses medicamentos modificadores da doença promovem a retirada dessas placas do cérebro, ou seja, agem no que chamamos de fisiopatologia da doença”, explicou.
Apesar da inovação, a médica ressalta que os benefícios observados na prática ainda são modestos. “Infelizmente, não foi observado benefício clínico compatível com essa limpeza. A melhora é muito pequena e há um atraso na progressão da doença, mas essa progressão acontece invariavelmente”, afirmou.
Segundo a especialista, mesmo utilizando os novos medicamentos, os pacientes precisam manter o tratamento multidisciplinar, incluindo reabilitação cognitiva, terapias especializadas e prática regular de atividade física.
Alzheimer começa com falhas de memória e perda gradual da autonomia
De acordo com Amanda Bispo, o Alzheimer faz parte do grupo das doenças demenciais, caracterizadas pela perda progressiva das capacidades cognitivas, especialmente da memória. Os primeiros sinais podem parecer simples esquecimentos do dia a dia, mas tendem a se tornar cada vez mais frequentes e impactantes.
“A perda de memória pode começar com descuidos em atividades rotineiras, como deixar o fogão aceso ou a torneira ligada, passando por não recordar o caminho de casa, até o paciente se tornar completamente dependente”, destacou.
Ela explica que o diagnóstico de demência ocorre quando a pessoa passa a depender de terceiros para atividades instrumentais, como administrar finanças, utilizar o telefone ou preparar refeições, e posteriormente para atividades básicas, como tomar banho e se alimentar.
Com a repercussão dos novos medicamentos, muitas pessoas passaram a chamá-los de “vacina contra o Alzheimer”. No entanto, a neurologista esclarece que a comparação está incorreta. “Tomamos vacinas para prevenir o aparecimento de uma doença. O tratamento do Alzheimer é diferente. Trata-se de uma medicação injetável que promove a limpeza das placas amiloides. São conceitos diferentes”, explicou.
Quem pode receber os novos medicamentos?
A indicação dos medicamentos é bastante criteriosa e restrita a pacientes em estágio inicial da doença. “Somente pacientes em estágio inicial podem receber a medicação. Pacientes em estágios moderados ou avançados infelizmente não se beneficiam do tratamento e, até o momento, ficam de fora das indicações”, afirmou.
Além disso, os medicamentos apresentam diversos efeitos colaterais e uma extensa lista de contraindicações, exigindo acompanhamento em centros especializados.
Antes da aprovação para o tratamento, os pacientes passam por uma série de exames, incluindo ressonância magnética, análise do líquor e até testes genéticos específicos. “A indicação da medicação passa por uma avaliação muito criteriosa”, ressaltou a neurologista.
Aprovação não significa acesso imediato pelo SUS
Outra dúvida frequente entre pacientes e familiares está relacionada à disponibilidade dos medicamentos após aprovação pelos órgãos reguladores.
Segundo Amanda, a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não garante automaticamente o fornecimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “É importante diferenciar que não é porque uma medicação foi autorizada pela Anvisa que ela está automaticamente disponível no SUS. São processos diferentes”, explicou.
A especialista também aponta o alto custo como um dos principais desafios para a ampliação do acesso ao tratamento.
Idade continua sendo principal fator de risco
Quando o assunto é herança genética, Amanda destaca que a idade ainda é o principal fator de risco para o desenvolvimento do Alzheimer. “O maior fator de risco para a doença de Alzheimer é a idade. Independentemente de ter parentes acometidos ou não, todos nós estamos sujeitos a desenvolver a doença conforme envelhecemos”, disse.
Casos diagnosticados antes dos 50 anos apresentam maior possibilidade de relação genética e podem demandar investigação familiar específica.
Mesmo sem medicamentos capazes de prevenir a doença, a neurologista reforça que hábitos saudáveis ajudam a proteger o cérebro ao longo da vida. “Protegemos nosso cérebro fazendo coisas novas, aprendendo um novo idioma, tocando um instrumento, estudando, lendo e, claro, praticando atividade física regularmente.”
Amor e apoio familiar seguem fundamentais
Embora os avanços científicos tragam esperança para milhões de pessoas, Amanda destaca que o cuidado diário continua sendo um dos pilares mais importantes do tratamento.
“Não devemos perder a esperança nunca. A medicina tem avançado bastante e de forma significativa, mas enquanto aguardamos novos resultados precisamos focar no presente, oferecer cuidado, paciência e carinho, manter o máximo de independência possível e integrar o paciente à família e à sociedade.”
Para a neurologista, nenhuma inovação substitui o papel da rede de apoio. “O amor e o apoio familiar continuam sendo a parte mais fundamental do tratamento.”











