Pular para o conteúdo principal

Folha de Notícias

Lojistas da Região da 44 falam em barrar nordestinos e pessoas de esquerda de empregos em Goiânia

Mensagens atribuídas a integrantes de um grupo de lojistas da Região da 44, em Goiânia, provocaram repercussão após comerciantes defenderem que nordestinos e pessoas identificadas com a esquerda política não fossem contratados para trabalhar em estabelecimentos da região.

As conversas ocorreram no domingo (4), enquanto os votos do primeiro turno da eleição presidencial eram apurados, e foram obtidas com exclusividade pelo portal Mais Goiás. O grupo reúne mais de 500 pessoas e é utilizado principalmente para troca de informações comerciais entre lojistas.

Em uma das mensagens, uma participante afirma que mulheres nordestinas que procurassem emprego deveriam “pedir emprego pro Lula”. Em outro momento, uma lojista diz que não contrataria mais trabalhadores vindos de estados como Maranhão, Piauí e Pará. Outros integrantes reagiram às mensagens com manifestações de concordância.

Também aparecem na conversa declarações defendendo que pessoas identificadas como de esquerda não fossem admitidas. Segundo a reportagem, uma participante relatou conhecer uma empresária que adotaria esse critério nas contratações, manifestação que também recebeu apoio no grupo.

Conversas ocorreram durante apuração eleitoral

A troca de mensagens começou por volta das 20h30 do domingo, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) disputavam a primeira colocação na eleição presidencial.

O contexto eleitoral aparece diversas vezes nas conversas. Parte dos integrantes relacionou o posicionamento político de eleitores do Nordeste ao mercado de trabalho em Goiás e defendeu retaliações na contratação de pessoas provenientes da região.

No primeiro turno, Lula venceu Flávio Bolsonaro nos nove estados nordestinos. O petista recebeu aproximadamente 21,5 milhões de votos na região, contra cerca de 10,4 milhões do candidato do PL.

Grupo não é oficial do Mega Moda

As mensagens circularam em um grupo formado por lojistas relacionados ao Mega Moda Shopping, mas o empreendimento informou ao Mais Goiás que o espaço não é um canal oficial do shopping e não é administrado ou moderado pela empresa.

Em posicionamento divulgado após a repercussão, o Mega Moda afirmou repudiar manifestações racistas, xenofóbicas ou discriminatórias e destacou que declarações individuais são de responsabilidade de seus autores.

O empreendimento também defendeu que eventuais práticas discriminatórias sejam apuradas e, quando houver irregularidades, responsabilizadas de acordo com a legislação.

Discriminação na contratação é proibida

Caso um empregador efetivamente deixe de contratar alguém por sua origem, a prática pode trazer consequências jurídicas.

A Lei nº 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias ou limitativas no acesso ao trabalho, incluindo discriminação motivada pela origem do candidato. A legislação prevê inclusive sanções administrativas para empregadores que adotarem critérios discriminatórios.

O próprio Ministério do Trabalho e Emprego explica que critérios como origem, religião e opinião política não devem ser usados para criar desigualdade de oportunidades no mercado de trabalho. A orientação tem como base, entre outras normas, a Lei nº 9.029 e a Convenção nº 111 da Organização Internacional do Trabalho.

Isso significa que preferência eleitoral ou procedência regional não devem substituir critérios profissionais como experiência, qualificação ou capacidade para exercer determinada função.

Denúncia partiu de ex-trabalhadora da região

As conversas chegaram ao Mais Goiás por meio de uma mulher que trabalhou durante aproximadamente quatro anos na Região da 44 e ainda participava do grupo. Ela pediu para não ser identificada.

Segundo o relato, manifestações desse tipo causariam constrangimento especialmente entre trabalhadores que vieram de outras regiões do país para buscar emprego em Goiânia.

Curiosamente, as próprias regras do grupo orientam os participantes a evitar assuntos políticos e manter respeito nas conversas. Após uma integrante questionar o teor das mensagens, ela teria sido orientada por outros participantes a deixar o grupo caso não concordasse com as manifestações.

Uma das lojistas citadas nas conversas foi procurada pelo Mais Goiás, mas não havia apresentado posicionamento até a publicação da reportagem.

O episódio ganhou repercussão nesta quarta-feira (7) e coloca em discussão os limites entre manifestações políticas particulares e práticas discriminatórias dentro das relações de trabalho.

Facebook
WhatsApp

Confira nossa última edição impressa do Jornal Folha de Notícias