Esperar sentir dor ou perceber algum sintoma para procurar um médico ainda é um dos principais obstáculos à saúde masculina. O alerta é do urologista Dr. João Pedro Marin, que defende uma mudança de comportamento entre os homens e reforça que a prevenção deve fazer parte da rotina, independentemente da idade.
Segundo o especialista, a consulta preventiva vai muito além da solicitação de exames. “A primeira coisa que faço é ouvir”, afirma. Antes de qualquer investigação, o médico explica que é fundamental conhecer o paciente, compreender seu histórico familiar, hábitos de vida, alimentação, prática de atividade física, qualidade do sono, saúde sexual, uso de medicamentos e possíveis fatores de risco.
“A consulta preventiva não deve ser uma ‘caça a doenças’. Ela deve ser uma oportunidade para conhecer o paciente, identificar fatores de risco e definir, de maneira individualizada, o que realmente precisa ser investigado”, destaca.
Mesmo quando o paciente relata não sentir nenhum sintoma, o médico reforça que isso não significa, necessariamente, ausência de doenças. “Muitas vezes, o homem chega dizendo: ‘Doutor, eu não sinto nada’. E isso é ótimo, mas não significa necessariamente que esteja tudo bem. Algumas doenças são silenciosas durante muito tempo.”
De acordo com o Dr. João Pedro Marin, ainda existe uma forte resistência dos homens em procurar atendimento médico regularmente. Questões culturais, sensação de invulnerabilidade, medo de descobrir alguma doença, vergonha de falar sobre sexualidade e a ideia equivocada de que buscar ajuda representa fraqueza contribuem para esse comportamento.
“Enquanto o problema não atrapalha o trabalho, o treino ou a rotina, o homem vai adiando”, explica.
Para o urologista, a solução não está em culpar os pacientes, mas em tornar o atendimento mais acolhedor. “Precisamos criar um ambiente em que ele se sinta acolhido, respeitado e confortável para falar, inclusive sobre assuntos que ainda são considerados tabus.”
Doenças silenciosas reforçam importância da prevenção
Entre as principais enfermidades que podem evoluir sem apresentar sintomas estão o câncer de próstata, o câncer de rim e o câncer de bexiga.
Segundo o especialista, o câncer de próstata frequentemente não apresenta sinais na fase inicial, enquanto o câncer renal muitas vezes é descoberto por acaso durante exames realizados por outros motivos. Já o câncer de bexiga pode se manifestar apenas por um episódio de sangue na urina, muitas vezes ignorado pelo paciente.
“É justamente por isso que a ausência de dor não é um certificado de saúde”, alerta.
PSA e toque retal não diagnosticam câncer sozinhos
O médico também esclarece dúvidas comuns sobre os exames utilizados na avaliação da próstata.
Segundo ele, o PSA é um exame de sangue que mede uma proteína produzida pela próstata, enquanto o toque retal permite avaliar características da glândula, como tamanho, consistência e possíveis alterações.
“No entanto, nenhum dos dois exames, isoladamente, diagnostica câncer de próstata”, ressalta.
Ele explica que alterações no PSA podem ocorrer por condições benignas, como inflamações ou aumento da próstata, e lembra que um resultado normal também não exclui completamente a possibilidade da doença.
Sobre o rastreamento, o especialista reforça que a decisão deve ser individualizada, considerando idade, histórico familiar, fatores de risco e preferências do paciente. O Ministério da Saúde não recomenda o rastreamento populacional indiscriminado para homens sem sintomas.
Em relação ao toque retal, o Dr. João Pedro Marin faz um alerta contra preconceitos. “É um exame médico, não um teste de masculinidade. Ele dura pouco, é realizado com respeito e privacidade e pode fornecer uma informação clínica relevante.”
Disfunção erétil também pode indicar outros problemas de saúde
Além das doenças urológicas, o especialista destaca que alterações na função sexual merecem investigação médica.
Segundo ele, a disfunção erétil pode estar relacionada não apenas à saúde sexual, mas também a doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão, colesterol elevado, obesidade, alterações hormonais, ansiedade, depressão e outros fatores.
“Não devemos simplesmente prescrever um medicamento e encerrar a conversa. Precisamos perguntar: ‘Por que isso está acontecendo?'”, afirma.
Hábitos saudáveis fazem diferença
O médico reforça que atividade física regular, alimentação equilibrada, controle do peso, boa qualidade do sono, hidratação adequada, abandono do tabagismo e moderação no consumo de álcool são medidas essenciais para preservar tanto a saúde urológica quanto a sexual.
Além disso, orienta que sintomas como sangue na urina, alterações persistentes para urinar, dor, queda da libido e dificuldade de ereção nunca devem ser ignorados.
Para os homens que estão há anos sem realizar uma avaliação médica, o recado é claro: “Ótimo que você esteja se sentindo bem. Agora vamos descobrir se está realmente tudo bem.”
O Dr. João Pedro Marin afirma que não acredita em uma medicina baseada no medo ou na culpa. Pelo contrário, defende uma relação de acolhimento entre médico e paciente.
“Na medicina, muitas vezes encontramos pacientes que dizem: ‘Doutor, eu deveria ter vindo antes’. Mas minha resposta é sempre: ‘O importante é que você veio agora’.”
Para o especialista, a principal mudança necessária na saúde masculina é compreender que o acompanhamento médico não deve acontecer apenas diante de uma doença.
“Prevenção não é viver preocupado com doenças. Prevenção é ter liberdade para viver sabendo que você está cuidando de si. O homem não precisa procurar o médico somente quando alguma coisa está errada. Ele pode procurar o médico justamente para continuar bem.”











