Folha de Notícias

Quando o casamento termina, a parentalidade não

Por Dra. Aline Araujo | Advogada de Inventário

Existe uma confusão que custa caro às crianças: a incapacidade de separar a conjugalidade da parentalidade.

Casamentos acabam. E isso faz parte da vida. O amor muda de forma, as expectativas se frustram, os projetos deixam de caminhar na mesma direção. Às vezes, insistir em permanecer juntos produz mais sofrimento do que coragem para seguir caminhos diferentes.

O problema não é o fim do casamento.O problema começa quando o fim da relação entre dois adultos contamina a relação que ambos deveriam preservar com os filhos.Há pais que se divorciam do cônjuge, mas jamais se divorciam da guerra.

A partir daí, a criança deixa de ser filha para se tornar instrumento. Carrega recados, presencia discussões, escuta acusações que não compreende e, muitas vezes, sente que precisa escolher um lado.

Mas filho não nasceu para ser juiz do divórcio dos pais.

O ex-marido deixa de ser marido. A ex-esposa deixa de ser esposa. O pai continua pai. A mãe continua mãe. A parentalidade não admite ex.

É justamente por isso que maturidade não é permanecer casado a qualquer custo. Maturidade é compreender que o ressentimento entre os adultos não pode sequestrar a infância de quem nada teve a ver com o fracasso daquela relação.

Muitos pais perguntam o que podem fazer para minimizar os impactos da separação.A resposta talvez seja mais simples do que imaginam.

Não transformem o filho em confidente. Não utilizem a visita como moeda de troca. Não façam da pensão uma arma. Não disputem quem é o “melhor pai” ou a “melhor mãe”. Crianças não precisam de vencedores. Precisam de adultos emocionalmente responsáveis.

Os filhos observam muito mais do que escutam.Eles aprendem sobre respeito quando percebem que dois adultos, embora incapazes de permanecer casados, ainda conseguem se tratar com dignidade. Aprendem sobre amor quando descobrem que não precisam abandonar um dos pais para continuar amando o outro.

Talvez a maior prova de amor que um pai e uma mãe possam oferecer depois da separação seja esta: amar o filho mais do que alimentar o próprio orgulho.

Porque o casamento pode terminar.

A infância, não.

E ela passa depressa demais para ser desperdiçada em batalhas que nunca deveriam ter chegado ao coração de uma criança.

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