Folha de Notícias

Pesadelo para tutores em Santa Helena de Goiás: Mutirão de Castração vira alvo de denúncias 

O que deveria representar uma importante ação da saúde pública acabou se transformando em motivo de revolta, prejuízo financeiro e desespero para famílias em Santa Helena de Goiás. Tutores de cães procuraram a reportagem do Jornal Folha de Notícias para denunciar uma série de graves complicações médicas que, segundo eles, surgiram após procedimentos realizados pelo CastraMóvel promovido pela Prefeitura.

As denúncias apontam para um cenário de cirurgias realizadas “às pressas”, ausência de critérios técnicos considerados básicos, fornecimento insuficiente de medicamentos no pós-operatório e falta de suporte aos animais que apresentaram intercorrências graves após o mutirão. Os relatos também levantam questionamentos sobre a estrutura utilizada durante a ação e sobre a assistência prestada aos tutores quando surgiram complicações.

Segundo as informações obtidas pela nossa equipe de reportagem, centenas de animais teriam sido castrados em um único dia. O elevado número de procedimentos, conforme relatam tutores e profissionais ouvidos pela equipe, teria provocado um ritmo acelerado de atendimento que pode ter comprometido a qualidade das cirurgias.

Uma das tutoras afetadas descreveu o momento de desespero vivido poucas horas após retornar para casa com sua cadela.

“Fiz a castração na prefeitura. E hoje quando eu acordei ela estava com hemorragia abaixo da cirurgia, e desesperada eu corri pra clínica do Neto, ele teve que abrir ela às pressas.”

O animal precisou passar por uma cirurgia corretiva de urgência em uma clínica veterinária particular. Além do sofrimento da cadela, a tutora afirma ter arcado com um alto custo financeiro. “Só hoje eu gastei quase 2500. Mas já estou recolhendo as provas que tenho pra entrar com ação.”

Ela relata que os problemas não ficaram restritos a um único animal. Outros cães castrados no mesmo mutirão também começaram a apresentar sinais de inflamação na região dos pontos cirúrgicos. “Todos tá querendo inflamar. Porque eles deram medição para 3 dias. Não me informou de nenhuma medição depois.”

Fotografias e mensagens reforçam denúncias

As imagens encaminhadas à reportagem mostram o que os tutores classificam como graves complicações pós-operatórias. ASSISTA O VÍDEO!

Um dos registros exibe uma cadela com extensa incisão cirúrgica e um grande hematoma na região abdominal, indicando um quadro compatível com sangramento subcutâneo significativo. Outras capturas de tela mostram a busca imediata por atendimento em uma clínica veterinária particular, além de conversas nas quais uma médica veterinária orienta a realização de exame de ultrassom para avaliar a gravidade da hemorragia e verificar possíveis lesões internas.

Também foram encaminhadas fotografias e vídeos de outros animais submetidos ao procedimento no mesmo dia, evidenciando pontos cirúrgicos inflamados, presença de secreção e sinais de infecção.

Além das denúncias relacionadas aos procedimentos cirúrgicos, uma das denunciantes afirma que a médica veterinária responsável pelo programa municipal também manteria consultório particular na região e estaria oferecendo insumos, medicamentos e outros serviços.

A reportagem registra a denúncia, mas ressalta que a informação ainda deverá ser esclarecida pelos responsáveis e pelas autoridades competentes.

Veterinário critica condução do mutirão

A reportagem também ouviu profissionais da medicina veterinária que atuam em Santa Helena de Goiás. Sob condição de anonimato, um médico veterinário afirmou que o elevado número de procedimentos realizados em curto espaço de tempo pode ter contribuído para o aumento das complicações.

O profissional também criticou o que considera falta de estrutura adequada para a realização dos procedimentos e afirmou que clínicas veterinárias particulares precisam cumprir rigorosas exigências técnicas para funcionamento.

“A gente pra ter uma clínica veterinária tem que ter um centro cirúrgico seguro, equipe médica, monitor cardíaco, sala de recuperação. E aí os caras vêm e saem fazendo castração como se fosse fazer balinhas. Esquecem a ética e pensam só em política. Se a castração deu certo, tudo bem; se está morrendo, o problema é do tutor. Fazem o amparo e depois dão o desamparo.”

Segundo o veterinário, famílias de baixa renda acabam sendo atraídas pela gratuidade do serviço público, mas posteriormente precisam recorrer a clínicas particulares para salvar a vida dos animais, assumindo despesas que muitas vezes não conseguem suportar.

Modelo adotado em Rio Verde é citado como exemplo

O descontentamento entre profissionais da área também envolve a forma como os recursos públicos destinados à castração são utilizados no município.

Segundo as fontes ouvidas pela reportagem, Santa Helena de Goiás possuiria recursos destinados ao programa, mas ainda não teria implantado um sistema amplo de credenciamento de clínicas veterinárias particulares para execução dos procedimentos.

Na avaliação do veterinário entrevistado, o modelo adotado em Rio Verde seria mais eficiente por permitir que clínicas credenciadas realizem as castrações, distribuindo os atendimentos e oferecendo maior estrutura aos animais.

“A gente tem o exemplo de Rio Verde. Como é que foram feitas as castrações lá? Investiram todo o dinheiro em clínicas, os colegas fizeram muito serviço, entrou dinheiro para as clínicas se estabelecerem. As pessoas escolhiam em qual clínica cadastrada queriam levar o animal da prefeitura. E aqui? Tem dinheiro aí disponível e não cadastrou ninguém ainda. Fala que vai sair o dinheiro, mas não sai, e fica aquela coisa.”

O Jornal Folha de Notícias entrou em contato com a prefeitura de Santa Helena para obter um posicionamento sobre as denúncias, porém não houve retorno até o momento de publicação desta reportagem.

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