Mais de 11 anos após aterrorizar Goiânia com uma sequência de assassinatos aleatórios, Tiago Henrique Gomes da Rocha, conhecido nacionalmente como o serial killer de Goiânia, continua preso, mas poderá atingir o limite máximo de cumprimento da pena em 2044. Apesar da possibilidade prevista pela legislação vigente à época de sua condenação, o procurador de Justiça Maurício Gonçalves de Camargos afirma que a soltura dificilmente acontecerá e alerta para o alto risco de reincidência.
Condenado a uma pena unificada de 668 anos, 8 meses e 9 dias de prisão por mais de 30 assassinatos confessados, distribuídos em 34 processos, Tiago está preso desde 14 de outubro de 2014, quando foi capturado após uma intensa mobilização policial que encerrou meses de pânico na capital goiana.
Atualmente com 38 anos, ele cumpre pena em uma cela isolada no Núcleo de Custódia do Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital. Todos os processos relacionados ao caso já foram arquivados.
Embora a Lei nº 13.964/2019, conhecida como Pacote Anticrime, tenha ampliado de 30 para 40 anos o limite máximo de cumprimento de pena no Brasil, a alteração não se aplica ao caso de Tiago. Como ele foi preso e condenado antes da entrada em vigor da nova legislação, continua submetido ao limite anterior de 30 anos previsto no artigo 75 do Código Penal, podendo completar esse período em 2044.
Mesmo assim, o procurador de Justiça Maurício Gonçalves de Camargos, que atuou como promotor em 17 processos contra o serial killer, acredita que a liberdade não deverá ser concedida.
“O tempo de prisão decorre de um preceito legal. Está previsto no nosso ordenamento jurídico que a pessoa não pode ficar presa mais de 30 anos. Agora, numa situação como essa, nenhum juiz vai conceder a ele o alvará sem antes submetê-lo a um exame criminológico. E, na minha concepção, ele não passa no exame criminológico porque a psicopatia não é curável, não tem tratamento para psicopatia”, afirmou em entrevista ao g1.
Segundo o procurador, a possibilidade de novos crimes continua sendo uma preocupação. “O Tiago, uma vez solto, pode vir a cometer um homicídio, com muito mais potencialidade do que uma pessoa comum. Ele pode voltar a cometer homicídios pelas mesmas razões que o levaram a praticar tantos outros”, declarou.
Maurício também explicou que Tiago não pode ser encaminhado para uma clínica psiquiátrica, pois nunca foi considerado inimputável pela Justiça.
“O caso dele não é de inimputabilidade. Clínica de tratamento para doente mental é destinada às pessoas cujo laudo atesta que elas não tinham capacidade de compreender o que fizeram ou de se autodeterminar. Ele era plenamente capaz”, ressaltou.
“O Tiago não é doente mental. E, se ele não for liberado, tem que continuar preso. É o que resta para ele”, acrescentou.
Condenação aumentou após nova sentença
A pena de Tiago foi ampliada mais recentemente em outubro de 2023, quando ele recebeu uma nova condenação de 14 anos, 6 meses e 29 dias de prisão pela tentativa de homicídio contra duas mulheres.
Mesmo com a nova condenação, a legislação anterior continua garantindo que o tempo máximo de permanência na prisão seja de 30 anos.
Crimes espalharam medo e deixaram Goiânia em pânico
A sequência de homicídios praticados por Tiago Henrique Gomes da Rocha provocou um dos maiores episódios de medo coletivo da história recente de Goiás. Sem uma motivação aparente, as vítimas eram escolhidas aleatoriamente, o que aumentava a sensação de insegurança da população.
Maurício relembra que os julgamentos foram diferentes de qualquer outro processo que enfrentou ao longo da carreira.
“Era uma situação muito relacionada com aquele clamor social. Eram muitas vítimas, o que mobilizou profundamente a sociedade. Antes mesmo de atuarmos no processo, a população já estava em pânico por causa da sequência de homicídios que acontecia sem que se descobrisse o autor ou a motivação. Foram julgamentos que mexeram muito com a nossa condição emocional.”
De acordo com o procurador, um dos aspectos mais perturbadores era justamente a ausência de qualquer justificativa para os assassinatos.
“A razão estava no íntimo do Tiago, porque ele saía de casa armado e dizia: ‘Hoje eu vou matar alguém’. A vítima era escolhida de forma completamente aleatória. Esse contexto de uma pessoa morrer sem nenhuma razão aparente, sem ter brigado com ninguém e sem ter feito qualquer coisa que justificasse o crime, trazia ainda mais sofrimento para os familiares.”
Ele também destacou que o impacto emocional atingia os próprios profissionais envolvidos nas investigações e nos julgamentos.
“A gente procura atuar de forma profissional, mas não somos robôs. Acabamos sentindo também os reflexos dessa emoção que invade todos nós ao assistir a um processo e se perguntar: ‘Mas por que ele fez isso?'”
Frieza e busca por notoriedade marcaram o comportamento do serial killer
Segundo Maurício, durante os julgamentos Tiago demonstrava características típicas da psicopatia, como ausência de empatia, falta de remorso e comportamento calculista.
“As características principais de uma pessoa portadora desse transtorno são a falta de empatia, a falta de remorso e o fato de não se arrepender, de maneira alguma, daquilo que fez.”
O procurador também contou que Tiago buscava notoriedade e costumava guardar reportagens sobre os assassinatos.
“O Tiago é uma pessoa inteligente. Quando achava que devia falar para alcançar alguma notoriedade. aliás, essa questão da notoriedade foi uma das situações que motivavam os crimes, ele falava. Tanto que fazia questão de guardar jornais da época que tratavam dos homicídios. Quando não era conveniente, permanecia calado, reclinava a cabeça sobre a mesa diante do juiz e não dizia uma palavra.”
Um reflexo de celular foi suficiente para escolher a próxima vítima
Entre todos os processos, um caso permanece marcado na memória do procurador. A vítima era uma jovem que havia deixado o interior para estudar e trabalhar em Goiânia. Na noite do crime, ela estava no banco traseiro do carro de amigos quando o veículo parou em um semáforo na Avenida Mutirão.
Segundo o relato de Tiago, o reflexo da luz do celular iluminando o rosto da jovem foi suficiente para despertar nele o desejo de matar. “Ele disse que aquele reflexo da luz do celular, iluminando o rosto da vítima no banco de trás do carro, despertou nele o desejo de matá-la. Ele precisava escolher alguém naquela noite como vítima e escolheu essa moça.”
O procurador afirmou que Tiago perseguiu o veículo por vários semáforos até encontrar a oportunidade para efetuar um único disparo, um padrão que se repetia em diversos homicídios atribuídos ao serial killer.











