Em uma tentativa de demonstrar força política em meio ao desgaste de sua pré-campanha presidencial, o senador Flávio Bolsonaro se reuniu na terça-feira (26) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca. O encontro, mantido em sigilo até o fim da agenda, só foi confirmado oficialmente no final da tarde.
Também participaram da reunião o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e o empresário Paulo Figueiredo, apontados como articuladores junto à ala mais ideológica do governo americano.
Segundo Flávio, Trump iniciou a conversa perguntando sobre a situação do ex-presidente Jair Bolsonaro. Durante o encontro, o senador afirmou ter tratado de temas ligados a terras raras, tarifas comerciais e segurança pública, além de defender que facções criminosas brasileiras, como o Comando Vermelho e o PCC, sejam classificadas pelos Estados Unidos como organizações terroristas.
“Temos um em cada quatro brasileiros morando em áreas que são dominadas por facções criminosas, que impõem as suas próprias regras, facções que são espécies de governo paralelo em muitas áreas do Brasil, e nós vamos libertar essas pessoas”, declarou o pré-candidato.
Apesar da repercussão política, analistas minimizaram o peso institucional do encontro. O analista internacional da CNN, Lourival Sant’Anna, avaliou que a agenda serviu principalmente como uma oportunidade de exposição política.
“Foi uma oportunidade de foto apenas, não foi uma reunião, não foi uma discussão, não foi uma apresentação de ideias”, afirmou.
Segundo ele, documentos relacionados aos temas apresentados por Flávio foram entregues à equipe americana como tentativa de aproximação política e ideológica com Trump. Lourival destacou ainda que o republicano busca manter boas relações com o Brasil independentemente de quem esteja no poder, mas que uma eventual vitória de Flávio poderia tornar essa relação “mais suave e lubrificada”.
Planalto evita ampliar repercussão do encontro
Nos bastidores de Brasília, a avaliação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi de minimizar o impacto político da reunião. O diretor de Jornalismo da CNN em Brasília, Daniel Rittner, afirmou que o Palácio do Planalto e o Itamaraty trabalharam para evitar qualquer superdimensionamento do encontro.
De acordo com ele, a leitura dentro do governo é que a agenda dialoga principalmente com a base mais fiel do bolsonarismo e com o eleitorado conservador tradicional.
Rittner também apontou contradições na estratégia da pré-campanha do senador. Enquanto aliados como Rogério Marinho tentam vender a imagem de um “bolsonarismo moderado”, a presença de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo ao lado do pré-candidato reforça um discurso mais radicalizado.
“É como se saísse o discurso dos profissionais da política voltados para o eleitor de centro e se fizesse um apelo para os eleitores da direita mais radical”, analisou.
Queda nas pesquisas e crise política no Rio pressionam pré-campanha
O analista político da CNN, Caio Junqueira, classificou o encontro com Trump como “um respiro” para Flávio Bolsonaro, que enfrenta aproximadamente duas semanas de forte desgaste político.
Segundo ele, o senador perdeu entre cinco e seis pontos nas pesquisas de intenção de voto, o equivalente a cerca de sete milhões de eleitores, após a repercussão negativa da relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
“Não é um encontro que define a eleição, muito longe disso”, ponderou Junqueira.
O analista destacou ainda que Flávio enfrenta resistência entre setores do agronegócio, mercado financeiro, empresariado e parte da classe política, que demonstram preocupação sobre sua capacidade de articulação e governabilidade.
A crise ganhou novos capítulos no Rio de Janeiro no mesmo dia do encontro. O ex-governador Cláudio Castro voltou a ser alvo da Polícia Federal na investigação sobre R$ 3 bilhões transferidos do RioPrevidência ao Banco Master. Foi a segunda operação contra Castro em menos de 15 dias, aprofundando o desgaste político no estado.
Aliados de Flávio afirmam que a resistência de Castro em abrir mão de sua pré-candidatura ao Senado atrasa a formação da chapa bolsonarista no Rio e impede que o senador consolide um palanque forte em sua principal base eleitoral.
“Escudo das Américas” gera preocupação entre militares
Outro ponto discutido durante a viagem foi o chamado “escudo das Américas”, proposta articulada por líderes conservadores da região durante uma cúpula realizada em Miami no início deste ano.
Segundo Lourival Sant’Anna, o projeto prevê uma militarização do combate ao crime organizado, incluindo a classificação de facções criminosas como grupos terroristas.
Para o analista, a medida “é bastante perigosa”, já que poderia abrir margem para ações militares dos Estados Unidos em território latino-americano sob justificativa de combate ao terrorismo.
Daniel Rittner acrescentou que integrantes das Forças Armadas brasileiras observam a iniciativa “com muita suspeita”, avaliando que esse tipo de estratégia pode gerar mais instabilidade do que soluções efetivas.
Já a âncora da CNN Thais Herédia criticou a declaração de Flávio Bolsonaro sobre possíveis acordos comerciais inéditos entre Brasil e Estados Unidos caso seja eleito presidente.
“Essa declaração não tem substância”, afirmou a jornalista, argumentando que o senador desconsidera regras já estabelecidas pelo Mercosul e mecanismos existentes no comércio exterior.











