Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, mostram que o empresário recebeu antecipadamente reportagens do portal Metrópoles, sugeriu mudanças nos textos e teve pedidos atendidos antes da publicação. O conteúdo foi revelado pelo UOL nesta quinta-feira (15).
Segundo o levantamento, ao menos 14 reportagens foram enviadas previamente a Vorcaro e 11 delas sofreram alterações após pedidos feitos pelo então banqueiro. O UOL também identificou registros de duas matérias que teriam sido publicadas a pedido dele.
As conversas mostram uma linha direta entre Vorcaro e Lilian Tahan, CEO do Metrópoles. Essa aproximação teria se consolidado em 2024, mesmo ano em que o Banco Master fechou um contrato publicitário de R$ 20 milhões com o portal.
Pedidos de mudança em reportagens
Entre os exemplos apresentados pelo UOL está uma reportagem sobre a venda de ativos do Master ao BTG Pactual. Em maio de 2025, Vorcaro pediu que uma referência à Hapvida fosse retirada do texto. Segundo as mensagens, a solicitação foi atendida.
Em outra situação, envolvendo Renato Gomes, então diretor do Banco Central ligado à análise da tentativa de compra do Master pelo BRB, Vorcaro sugeriu retirar uma referência à falência de uma instituição financeira e acrescentar que existiria uma divisão interna no Banco Central sobre a operação.
Também propôs incluir especulações sobre o futuro profissional de Gomes. De acordo com o UOL, essas sugestões foram incorporadas ao texto publicado.
As mensagens indicam ainda que, em agosto de 2025, Vorcaro pediu que o portal reduzisse temporariamente a exposição de Ricardo Cappelli, que fazia críticas públicas à proposta de aquisição do Master pelo BRB. A resposta atribuída à CEO do Metrópoles foi: “Deixa comigo”.
Contrato milionário com o Master
A relação comercial entre o Banco Master e o Metrópoles avançou ao longo de 2024.
Segundo as mensagens, o banco pagou R$ 1 milhão ao portal em junho daquele ano. No mês seguinte, outros R$ 900 mil foram acertados para projetos ligados à seguradora Kovr e ao banco digital Will. Em novembro, uma nova negociação teria chegado a R$ 20 milhões, valor que teria sido quitado em 2025 em parcelas de R$ 5 milhões.
Em uma das conversas, uma diretora de marketing comentou que o Metrópoles estava caro. Vorcaro respondeu tratando a relação com o portal como algo de grande importância para o grupo.
O que diz o Metrópoles
Lilian Tahan afirmou ao UOL que o envio antecipado de textos a fontes faz parte de uma prática de checagem de contexto que ela também utiliza com empresários, políticos e integrantes do Judiciário.
A CEO negou que o contrato publicitário com o Banco Master tivesse qualquer relação com a cobertura editorial. Como argumento, citou reportagens do próprio Metrópoles que expuseram problemas envolvendo empresas associadas a Vorcaro, como Banco Master, Ambipar, Fictor e Oncoclínicas.
Mensagens estão sob custódia da Polícia Federal
A Polícia Federal confirmou em setembro que mantém sob sua custódia o material original extraído do celular de Daniel Vorcaro, com cadeia de custódia formalmente documentada e mecanismos de verificação de integridade digital. Cópias desse material foram encaminhadas a gabinetes de ministros do Supremo Tribunal Federal, observadas as cautelas de sigilo.
A PF mantém investigações relacionadas ao Banco Master e informou nesta semana ao STF que os inquéritos seguem em andamento, com análise de materiais e encaminhamentos submetidos às regras processuais aplicáveis.
É importante destacar que a conclusão de que houve interferência editorial é apresentada pelo UOL a partir da análise das mensagens obtidas pela PF. A Polícia Federal não divulgou, até o momento, uma conclusão oficial atribuindo ao Metrópoles crime ou irregularidade jornalística.










