Dois irmãos brasileiros, de 8 e 9 anos, deixaram uma instituição de acolhimento em São Luís de Montes Belos, no oeste de Goiás, para começar uma nova vida com uma família na Itália. As crianças foram adotadas pelo casal Nicola D’Alba e Maria Cristofaro, moradores de Bari, no sul do país europeu.
A aproximação entre o casal e os irmãos começou antes mesmo do encontro presencial. Com autorização da Justiça, foram realizadas seis videochamadas, acompanhadas pela Comissão Estadual Judiciária de Adoção Internacional de Goiás (Cejai-GO). Depois dessa etapa, Nicola e Maria viajaram ao Brasil e permaneceram cerca de 30 dias em Goiânia durante o estágio de convivência.
Ao relembrar o processo, Maria destacou os desafios enfrentados até a formação da família.
“Não foi nada fácil. Mas, o amor que sentimos dentro de nós foi muito maior que os obstáculos.”
Idioma foi um dos primeiros desafios
No começo da aproximação, a língua foi uma das principais barreiras. O advogado Marco Barone, representante no Brasil do organismo de adoção internacional Il Mantello, participou dos primeiros contatos ajudando na tradução entre o italiano e o português.
Com o passar das chamadas, a comunicação começou a se tornar mais natural. Segundo o TJ-GO, brincadeiras ajudaram a diminuir a distância, entre elas um teatro de bonecos realizado pelas próprias crianças durante os encontros virtuais.
Nicola e Maria decidiram adotar depois de experiências pessoais ligadas ao acolhimento e ao trabalho humanitário. Ele já atuou em um centro de recepção de imigrantes, enquanto ela desenvolvia atividades voluntárias relacionadas à Igreja Católica. Os dois também participaram de ações humanitárias fora da Itália.
15 visitas e 15 relatórios acompanharam formação dos vínculos
O processo envolveu acompanhamento intenso das equipes do Judiciário goiano. Segundo o TJ-GO, foram produzidos 15 relatórios e realizadas 15 visitas técnicas por profissionais das áreas de psicologia e assistência social durante a avaliação da convivência familiar.
Os pareceres apontaram a formação de vínculos de parentalidade e apego entre o casal e as crianças, permitindo que o processo avançasse para a decisão definitiva.
Ao deferir a adoção, o juiz Ageu de Alencar Miranda escreveu uma mensagem ao casal, destacando que aquele momento representava o início de uma nova história familiar construída entre Brasil e Itália.
Irmãos estavam afastados da família biológica desde 2022
De acordo com a cronologia divulgada pelo Tribunal de Justiça de Goiás, as crianças foram retiradas da família biológica em 2022, em razão de situação de negligência familiar. No ano seguinte, houve a destituição do poder familiar.
Entre 2023 e 2025, os irmãos permaneceram em família acolhedora em Vianópolis. Posteriormente, foram encaminhados para uma instituição em São Luís de Montes Belos. Em 2025, a Cejai-GO passou a acompanhar o caso e iniciou a busca por pretendentes compatíveis com o perfil dos dois irmãos.
A adoção internacional foi concluída em 2026, depois que foram analisadas as possibilidades de colocação das crianças em família adotiva no Brasil e no exterior.
Nova vida na Itália
Após a sentença e a emissão dos novos registros civis, os irmãos viajaram com os pais para a Itália. Já em Bari, começaram a conhecer avós, tios e outros familiares e foram inseridos na rotina escolar.
O processo, porém, não termina com a viagem. A adaptação da família será acompanhada por dois anos, com envio periódico de relatórios sobre saúde, desenvolvimento, ambiente familiar e adaptação escolar ao Judiciário brasileiro, conforme as regras aplicáveis à adoção internacional.
Por que uma adoção internacional?
A adoção internacional é utilizada de forma subsidiária, especialmente quando não são encontrados pretendentes habilitados no Brasil compatíveis com o perfil da criança ou adolescente.
O próprio TJ-GO chama atenção para um dos principais desafios do sistema brasileiro de adoção: embora existam mais de 36 mil pretendentes cadastrados para cerca de 4,8 mil crianças e adolescentes disponíveis, grande parte das famílias procura crianças pequenas, geralmente com até quatro anos, sem irmãos e sem determinados problemas de saúde.
Essa diferença de perfil reduz significativamente as possibilidades de adoção para crianças mais velhas e grupos de irmãos. No caso dos dois irmãos goianos, a cooperação internacional permitiu que permanecessem juntos e passassem a integrar a mesma família.










